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Crianças Expostas

Durante séculos, especialmente entre a Idade Média e o final do século XIX, a Itália viveu uma realidade social marcada por pobreza extrema, fome, guerras, epidemias e forte controle moral exercido pela Igreja Católica. Nesse contexto, o nascimento de filhos fora do casamento era severamente condenado, e muitas mulheres — viúvas, jovens solteiras, vítimas de violência ou em situação de absoluta miséria — não tinham qualquer suporte familiar ou estatal para criar seus filhos. Diante disso, o abandono institucional do recém-nascido passou a ser, para muitas mães, a única alternativa possível para garantir a sobrevivência da criança.


Essas crianças eram chamadas de “expostas” (esposti), termo que se refere ao ato de serem deixadas publicamente sob os cuidados de instituições. A prática mais conhecida era a utilização da Roda dos Expostos (ruota degli esposti), um mecanismo instalado, em sua maioria, em conventos, hospitais religiosos e instituições ligadas diretamente à Igreja.



A mãe colocava o bebê do lado externo da roda, girava o dispositivo e tocava um sino. Do lado de dentro, religiosos ou funcionários recolhiam a criança sem que houvesse qualquer contato visual com quem a deixou, garantindo anonimato total.


A Igreja Católica teve papel absolutamente central nesse sistema. Durante séculos, foi ela quem assumiu quase integralmente a função de assistência social. A Igreja não apenas acolhia a criança, mas também realizava o batismo, providenciava o registro do nascimento (antes da consolidação do registro civil), organizava a guarda da criança em orfanatos, hospitais de caridade ou com amas de leite, e, em alguns casos, intermediava adoções formais ou informais. Em muitas regiões da Itália, especialmente antes da unificação, o Estado praticamente não atuava nessa área; portanto, os registros dessas crianças eram quase sempre eclesiásticos, e só mais tarde passaram a ser transcritos para os livros civis.


Exemplo a seguir referente a uma família acompanhada por nossa equipe (Família Crosati) - Registro da Roda:



No momento do registro, essas crianças recebiam um nome e um sobrenome atribuídos pela instituição. É nesse contexto que surge o sobrenome Esposito (bem como variações como Sposito, D’Esposito, Degli Esposti), derivado do latim expositus, que significa literalmente “exposto” ou “abandonado”. Esse sobrenome não indica uma família de origem, mas sim uma condição administrativa e social. Com o passar das gerações, o sobrenome tornou-se hereditário, perdendo o significado original para os descendentes, embora sua origem histórica permaneça a mesma.


Um aspecto profundamente humano e simbólico desse sistema era o chamado “sinal” (segno di riconoscimento). Muitas mães, ao deixarem seus filhos, colocavam junto à criança um objeto com a intenção de um possível reconhecimento futuro. Podia ser um pedaço de pano rasgado ao meio, um medalhão partido, uma imagem de santo quebrada, uma fita, um rosário incompleto ou até um bilhete simples. A mãe ficava com a outra metade do objeto, acreditando que, quando tivesse melhores condições, poderia retornar à instituição, apresentar sua parte do sinal e assim provar a maternidade. Historicamente, esses reencontros quase nunca aconteciam. Muitas mães não conseguiam retornar por falta de recursos, por morte, por deslocamentos forçados ou pelo próprio peso social do abandono. Os sinais, quando existentes, às vezes eram mencionados nos registros internos das instituições, mas raramente constavam nas certidões civis.


Exemplo a seguir referente a uma família acompanhada por nossa equipe (Família Crosati) - Sinal




Do ponto de vista documental, os registros dessas crianças normalmente trazem expressões como figlio di ignoti, genitori sconosciuti ou nato da donna non nominata. Isso significa que não há informação sobre os pais biológicos, e essa ausência não é considerada erro, fraude ou irregularidade, mas sim reflexo direto da prática institucional da época. Para pesquisas genealógicas, isso representa um ponto de ruptura da linha ancestral, pois não é possível retroceder além daquele primeiro registro.


No que diz respeito aos processos de cidadania italiana, é fundamental compreender o que essa condição influencia e o que não influencia. A presença do sobrenome Esposito ou a condição de criança exposta não impede automaticamente o reconhecimento da cidadania italiana. Se a linha documental está contínua a partir daquela pessoa — ou seja, se é possível comprovar, geração por geração, o vínculo de filiação entre o exposto e seus descendentes — o processo pode seguir normalmente.


Exemplo a seguir referente a uma família acompanhada por nossa equipe (Família Crosati) - Documentos sobre esse Italiano





O que se perde, nesses casos, não é o direito à cidadania, mas a possibilidade de reconstruir a genealogia anterior ao nascimento daquela criança.


No Brasil, entre o período colonial e as primeiras décadas do século XX, essa prática foi amplamente adotada sob forte influência do modelo europeu de assistência social ligado à Igreja Católica. As Santas Casas de Misericórdia passaram a assumir o acolhimento de crianças abandonadas em um contexto de ausência quase total do Estado, sendo responsáveis pelo cuidado, batismo, registro do nascimento e encaminhamento dessas crianças para orfanatos, hospitais ou amas de leite. Em cidades como Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Porto Alegre, funcionaram oficialmente as Rodas dos Expostos, utilizadas para o abandono anônimo de recém-nascidos, com funcionamento semelhante ao observado na Itália.


Os registros dessas crianças eram, em sua maioria, eclesiásticos, posteriormente transcritos para o registro civil, e frequentemente indicavam a condição de “exposta”, “enjeitada” ou “filho de pais desconhecidos”, sem menção à filiação biológica. Em alguns casos, há referência à existência de um “sinal”, deixado pela mãe com a intenção de um possível reconhecimento futuro, prática que, embora prevista, raramente resultava em reencontros.


Com o avanço da legislação civil e das políticas públicas de proteção à infância, as Rodas dos Expostos foram sendo gradualmente desativadas ao longo do século XX, sendo extintas por volta da década de 1950. Atualmente, essas estruturas não possuem função assistencial, permanecendo apenas como elementos históricos, preservados em algumas Santas Casas e museus.


RODA DOS EXPOSTOS (1825 – 1961) - Museu Santa Casa de Misericórdia



 
 
 

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